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Afinal, Deus existe?

A religião sempre foi fundamental para explicar questões pouco compreendidas. A fé traz enorme conforto. Os acontecimentos cotidianos quase sempre são atribuídos à vontade de Deus. Sem esse consolo muitos teriam dificuldade para aceitar algumas situações. A dor da realidade seria terrível.

Quando um ente querido morre é mais cômodo ouvir que “Deus sabe o que faz”, “ele está num lugar melhor do que nós” e que “era a hora dele” do que qualquer outra coisa. Quem se atreve a dizer o contrário é tido como desarmonioso e desrespeitoso.

A crença gera obediência e glorificação. Muitos não conseguem responder de forma lógica porque se comportam deste ou daquele jeito, mas se limitam a dizer que suas condutas estão pautadas em conformidade com passagens religiosas. “Cristo morreu na cruz”, então deve ser feito isto e aquilo. Questionar é sinônimo de heresia.

Vários fatores culturais foram desenvolvidos a partir disso. A ciência prova muita coisa, mas há fatores que são absolutamente genéricos e metafísicos e, portanto, não podem ser desmistificados, como é o caso, por exemplo, da vida após a morte. Ninguém consegue demonstrar com fidedignidade se isso é verdade ou não. É uma questão de fé. O desconhecido gera medo. As questões abstratas dão força às religiões.

Contudo, muitos mitos do campo biológico e geográfico já foram desvendados. A Peste Negra e a Varíola não eram frutos da fúria dos deuses. Placas tectônicas não se chocam por ordem dos céus. Navios não naufragam por desejos de monstros marítimos.

Embora existam estórias que hoje são tidas como cômicas, pode ser que em cem anos algumas concepções da atualidade sejam dignas de risada, tal qual como a que era necessário pagar para entrar no reino dos deuses. Martinho Lutero era desconfiado da ideia de que quanto mais moedas de ouro pagas à Igreja, mais aconchegante seria o pós-vida. Refletir não pode ser visto como “pecado”, apesar disso ter sido considerado gravíssimo no período da Santa Inquisição.

Se um carro com cinco passageiros capota e só um sobrevive, religiosos afirmariam: “esse nasceu de novo. Deus tem um propósito de vida para ele”. Outros mais céticos já diriam: “que sorte, ele foi o único que estava de cinto e não bateu a cabeça

Os fatos são únicos, o que mudam são as interpretações, mas as divergências de pensamentos e o fanatismo podem gerar problemas. Embora os cultos preguem a tolerância, paz e fraternidade, os países menos religiosos são os que possuem menor incidência de violência no mundo segundo o Índice Global da Paz (IGP).

Muçulmanos, Cristãos e membros do Estado Islâmico acreditam no paraíso. A discordância é apenas de como chegar até lá. Uns explodem bombas e matam pessoas. Outros vão a missa. Uma fé não pode ser considerada superior à outra. Ao invés de ter temor de castigos divinos, a humanidade deveria começar a ter receio dela mesma.

A reflexão acerca da existência de Deus é algo extremamente pessoal e subjetivo. Mas nem sempre uma seita respeita a fé da outra. Quem se autodeclara ateu, agnóstico, deísta ou qualquer coisa que negue os ensinamentos de uma determinada religião é visto praticamente como criminoso, embora não possa dar tratamento igual aos que creem em algo. O respeito há de ser uma mão de via dupla.

Discordar ou concordar com esse artigo não pode ser visto como pecado.

LENINE PÓVOAS é Advogado, Professor, Procurador Geral da Câmara Municipal de Cuiabá/MT, Pós-graduado e mestrando pela PUC/SP.

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