ARTIGOS

O Boi de Piranha da Corrupção

           A corrupção é algo inerente ao ser humano, atemporal e sempre se fez presente na história planetária. Todas as vezes em que há uma pressão muito grande em algum caso específico é possível que haja condenação para fins de “satisfação social”.

Entretanto, nem sempre o posicionamento que atende o desejo momentâneo de “justiça” seja o mais eficaz no que diz respeito ao combate a atos dessa natureza. Há duas formas de se enfrentar a questão: com a política do “boi de piranha” ou por intermédio de mecanismos de fiscalização, controle e punição.

             A tática do boi de piranha é realizada quando algumas pessoas ou instituições se sentem ameaçadas ou simplesmente querem agradar a população e elegem uns e outros que estão em situação de fragilidade para depositarem toda a responsabilidade de uma determinada situação e lavarem as mãos e a imagem.

Quando a sociedade e a imprensa “apertam demais” é necessário jogar algo para saciar a fome dos “leões”. Essa estratégia sempre foi tida como uma saída política confortável para o anestesiamento do povo. Com isso passa-se a falsa ideia de seriedade, inclusive apontando que os “bois de piranha” são os causadores de todos os males, além de provocar euforia na população com a fantasiosa sensação de “mudança”.

Essa prática não resolve o problema, mesmo porque dá apenas uma falsa percepção de “transformação”, mas que não mexe na estrutura social e nem tampouco nos valores éticos, o que acaba permitindo que atos dessa estirpe continuem acontecendo. Se descobertos, usam a referida estratégia para manipular a opinião pública, a qual se limita a comemorar quando alguém é sorteado para ser a “bola da vez”.

Muitas vezes o “escolhido” já está condenado antes mesmo da decisão ser proferida, independente de se ter provas ou de ser respeitado o devido trâmite processual. Os reflexos disso podem ser vantajosos aos olhos do leigo, mas, além de ser uma ilusão, é um convite à desordem na medida em que impossibilita o cumprimento de preceitos republicanos mínimos.

O papel do “boi de piranha” está mudando. Antigamente, se deslizasse, o sujeito amargava os prejuízos sozinho. Muitas vezes perdia um determinado cargo e ficava com a imagem arranhada. Hoje em dia quem comete “erros” no submundo da corrupção esta sujeito a ser preso, situação essa que pode lhe “forçar” a fazer uma delação premiada.

A essência da ideia ainda é a mesma: a pessoa continua sendo utilizada como um “meio”, porém sob uma perspectiva diferente: antes se satisfazia a opinião pública e o exibia como troféu, na atualidade o sujeito torna-se o instrumento para a descoberta de esquemas em escalas enormes.

Quadrilhas podem ser desmanteladas, mas isso não resolve a questão. Esse ciclo se oxigena e se rearticula, até porque a conduta não diz respeito a essa ou aquela pessoa, mas revela um traço cultural que está disseminado na sociedade.

A saída passa pelo crivo da educação, a qual permite que valores éticos sejam edificados, norteando a conduta das pessoas de forma individualizada e coletiva. Atrelado a isso é necessário construir mecanismos contínuos para fiscalizar, controlar e punir de forma geral, e não seletiva.

A espetacularização nunca impediu que a corrupção se instalasse. Esse comportamento é apenas reflexos da deficiência ética-estrutural do país, que é o que merece ser revisto com muito cuidado e urgência.

LENINE PÓVOAS é Advogado, Procurador Geral da Câmara Municipal de Cuiabá/MT e Professor.


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