ARTIGOS

A Sabedoria Arendt

               O que guia a maior parte dos comportamentos são os valores culturais de uma determinada época. Quanto mais o sujeito se deixar levar por questões sociais momentâneas, maior a chance de se cometer atos desprovidos de racionalidade, mesmo porque boa parte dessas condutas são “fabricadas” por interesses e influência dos monopólios econômicos, tecnológicos, dos veículos de comunicação, de políticas nefastas, entre outros. A ausência de reflexão do comportamento de forma individualizada possuí reflexos perigosíssimos (niilismo).

                A falta de discernimento faz a pessoa ser manipulada. Ela gosta, repudia e age dessa ou daquela forma de acordo com o que lhe ensinaram. É comum vermos as pessoas comemorando ou sofrendo por aquilo que nem mesmo elas sabem ao certo as razões pelas quais admiram. As vezes simplesmente aprenderam isso desde cedo e apenas dão seguimento a aspectos culturais sem muito sentido. A veneração de alguns esportes que o digam. Já ironizava Nietzsche em Gaia Ciência: “Viva na ignorância daquilo que seu tempo considera mais importante”.

                A filósofa Hannah Arendt (1906-1975) sintetizou isso muito bem. Ela afirmou que os inúmeros atos dos Nazistas durante a 2ª Guerra Mundial apenas seguiram uma orientação cultural daquele momento, oportunidade em que Líderes Políticos disseminaram na sociedade que era “normal” fazer testes, torturar e matar negros, judeus e homossexuais.

                A ignorância por falta de senso crítico fez com que o povo Alemão idolatrasse os que cometiam atos daquela natureza e repudiasse os que assim não o faziam. Hoje todos veem aquilo como inaceitável, mas se vivessem naquela época e não tivessem análise crítica talvez teriam feito igual. A capacidade que os valores “culturais” têm de preordenarem o comportamento social é surpreendentemente grande, seja ele positivo ou negativo.

Se não há reflexão, o que for ensinado como “certo” será executado como “normal”, independente do que se trate. Naquela época houve aceitação coletiva da banalização do mal, isto é, a falta de senso da população foi generalizada a ponto de permitirem perversidades inimagináveis. Isso nada mais era do que uma concretização da cultura vigente na época.

                A historia da humanidade é pautada dessa forma. Algumas instituições enfiam “goela abaixo” o comportamento e as crenças sociais, e quanto mais alienado for o individuo, mais ele fica vulnerável e suscetível a essas influências.

Spinoza, em sua magnífica obra “Ética”, ponderou: “Nós nos esforçaremos, igualmente, por fazer tudo aquilo que imaginamos que os homens veem com alegria e, contrariamente, abominaremos fazer aquilo que imaginamos que os homens abominam. Só por imaginarmos que alguém ama uma coisa, amaremos, por esse motivo, essa mesma coisa (...) por imaginarmos que alguém abomina alguma coisa, nós a abominaremos (...) cada um ser esforça, tanto quanto pode, para que todos amem o que ele próprio ama e odeiem também o que ele próprio odeia (...) cada um, por natureza, deseja que os outros vivam de acordo com a inclinação que lhe é própria. (...) Cada um necessariamente apetece ou rejeita, aquilo que julga ser bom ou mau” (págs. 197, 199, 201 e 289).

A falta de referência positiva ou leitura crítica das coisas podem levar às pessoas a cometerem atos carentes de valores éticos e nefastos à coletividade e a humanidade.

Nem tudo o que é “bonito” aos olhos da sociedade é o mais sensato a ser feito. Como já diria Krishnamurti: “não é sinal de saúde estar bem adaptado a uma sociedade profundamente doente”.

A educação técnica, que permite aos indivíduos conseguirem seu sustento, é fundamental para a manutenção da vida. Todavia, é imprescindível que as pessoas tenham uma formação paralela para que enxerguem com clareza o real sentido de algumas posturas com as respectivas consequências.

O problema é que o mundo atual, descrito por sociólogos e filósofos como “a sociedade do espetáculo na era do consumismo”, nos remete a supervalorização do material, impossibilitando uma formação para além do capital, inviabilizando o senso crítico e estrangulando perspectivas.

Felizes os que conseguem uma leitura analítica da época em que vivem, mesmo porque, via de regra, a contaminação é tanta que as pessoas ficam cegas, inclusive repudiando àqueles que se propõem a isso. É essa a razão pela qual algumas coisas apenas são “descobertas” por gerações futuras.

 

LENINE PÓVOAS é Advogado, Procurador Geral da Câmara Municipal de Cuiabá/MT, Professor, Pós-Graduado em Direito Administrativo pela PUC/SP, em Direito Eleitoral e Improbidade Administrativa pela FESMP/MT e Pós-Graduando em Direito Processual Civil pela UFMT. Fundador da Academia Brasileira de Direito Eleitoral e Político (ABRADEP).

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