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Interesses Fragmentados e Falência Estatal

Desde os primórdios a sociedade foi dividida em subgrupos, os quais são compostos pelos mais variados interesses. Diante da diversidade de posturas e comportamentos foi natural surgirem conflitos entre as pessoas. Para resguardar o bem-estar comum, sobretudo para garantir a paz social e o bom andamento da comunidade, surgiu o Estado.

Acima dos pleitos individuais estava a tranquilidade da coletividade, incumbida de ser cuidada pelo Estado. Além da instalação do Poder Público para fins de gerência, as pessoas deveriam ter posturas cívicas de modo à contribuírem conscientemente para a perseguição do interesse público.

No mundo contemporâneo o que mais se vê, a grosso modo, é exatamente o oposto: interesses fragmentados. Tratam-se de lutas pessoais ou de grupos objetivando o bem-estar apenas e tão somente deles, o que pode institucionalizar inúmeros problemas sociais.

No Brasil podemos citar greves policiais em prejuízo da segurança pública. Paralisações de servidores em detrimento do andamento da máquina estatal. Corporativismo por todos os lados e poderes, cujas instituições muitas vezes buscam apenas e tão somente protegerem interesses de seus integrantes.

Muitas das reinvindicações são legítimas e devem ser objeto de luta. Há outras que são eminentemente periféricas e egoísticas. Um exemplo recentíssimo é a briga entre o Poder Legislativo e o Poder Judiciário no âmbito Federal.

O Estado, que é o designado para gerir conflitos, parece ter sido dividido ao deleite de alguns poucos. O Poder Público, a nível global, tem sido sequestrado para proteger pessoas e benefícios individuais, indo na contramão da sua essência: cuidar do todo.

De tanto subdividirmos os anseios de pequenos grupos há um distanciamento do interesse público. Esses litígios ora são legítimos, ora são míopes. Entretanto, enquanto não houver sensibilidade por parte da sociedade de forma ampla e solidária, buscando o sucesso coletivo, a perspectiva é que os problemas aumentem. Nenhum litígio pessoal pode ser maior do que a civilidade e a convivência pacífica. Não há nada que justifique isso.

Se um desejo classista colide frontalmente com a sociedade e a coloca em risco, ele torna-se desproporcional. A paralisação total da saúde pública por falta de pagamento dos profissionais da área é um exemplo. O Estado, engessado em meio a interesses estranhos ao da população, muitas vezes não consegue resolver a questão, demonstrando uma clarividente insuficiência na sua razão de ser (resolução de problemas).

Essa situação não diz respeito a este ou aquele país, mas versa acerca de um fenômeno planetário, e que vem se agravando. O mundo global e o individualismo excessivo geram uma rápida mudança de valores, condutas e interesses, trazendo muita insegurança, e o Poder Público, que é quem deveria resguardar a sociedade, parece estar com propósitos diversos e aprisionado à corporações e a algumas pessoas, dando indícios de sua falência.

A ideia romântica e platônica de Estado desmoronou ante a natureza do homem, o qual, de forma individualizada, fragmenta seus interesses. Talvez nunca tenha ocorrido uma unificação de fato, e, sim, uma falsa ideia de unidade comunitária, contexto esse criado por uma concepção cultural (mindset).

                 

LENINE PÓVOAS é Advogado e Professor.

Cuiabá/MT, em 01.03.2017.

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