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Falecimento Cultural Anunciado

Falecimento Cultural Anunciado

 

Ao darmos uma visualizada geral no cenário político mato-grossense notamos que um grande número de pessoas que ocupam os cargos de maior relevância no Poder Legislativo e no Poder Executivo pertencem a outros Estados. A razão do artigo se deve ao fato de se querer abrir um diálogo para compreender, refletir e avaliar os efeitos culturais e sociológicos desse fenômeno.

 

Nas décadas de 60 e 70 o Estado de Mato Grosso sofreu enorme migração, principalmente de pessoas oriundas da região sul do país, sendo que boa parte desses indivíduos adquiriram terras no Estado, o que acabou culminando na explosão do agronegócio anos depois.

 

Há muito mérito na visibilidade de grandes empresários que conseguiram enxergar o enorme potencial da nossa região, não se olvidando ao enorme trabalho que tiveram para iniciar esforços de grande envergadura nos rincões do Brasil.

 

Hoje em dia é sabido que o que sustenta a economia local é o agronegócio, que, aliás, tem a maioria de sua propriedade restringida nas mãos de pessoas sulistas.

 

Ao se analisar política num cenário amplo, é perfeitamente “normal”, no atual grau de percepção e maturidade da sociedade, que após um grupo dominar a economia de determinado local, o próximo (e natural) passo é a conquista do Poder Político, ainda que esses cidadãos sejam desprovidos de formação histórica, política, filosófica, sociológica e outras bases que preparam o indivíduo com o perfil adequado parar exercer a função de líder na atividade pública. A história da humanidade está repleta de exemplos neste sentido.

Nessa toada, não se pode perder de vista que frequentemente esses candidatos não têm o mínimo de capilaridade com a população e cultura local, sendo que muitas vezes sequer têm serviços prestados a sociedade.

 

De outra banda, diante do enorme poderio econômico desse grupo para a realização de campanhas eleitorais (inclusive comprando a elite intelectual), o que, indubitavelmente, desiquilibra qualquer certame, acaba-se gerando um ciclo vicioso no corpo político do Estado, mesmo porque as mesmas figuras ou os seus prepostos acabam por serem eleitos e/ou ocupam os mais importantes cargos de confiança, razão pela qual cada vez mais a população local fica afastada do Poder Público e dos propósitos dos misteres da política, deslegitimando a representação popular e agravando o já tão calamitoso divorcio entre a atividade política e a participação popular.

 

“ uma vez (…) se tenha tornado dominante, todo o poder público passa para a suas mãos; os seus amigos particulares ocupam todos os empregos e dispõem de todas as forças organizadas.”
[ ALEXIS DE TOCQUEVILLE – A Democracia na América – p. 149 ]

 

Em outro cenário, de grande relevância destacar que parte da população mato-grossense deu abertura para isso, razão pela qual possuí parcela de responsabilidade, sobretudo diante da sua inércia, ausência de preparo, informação e malícia das virulências do jogo político.

 

No que tange a cultura local, basta passear pelas cidades mais tradicionais do Estado que restará perfeitamente evidenciado que essa foi esquecida, abandonada e menosprezada, mesmo porque ou a atual classe política desconhece-a ou simplesmente têm interesses estranhos ao da população mato-grossense.

 

Neste ponto, não poderia deixar de arrematar os grandes valores culturais que preenchem de brilho os olhos de quem conhece a história de Mato Grosso, aqui me refiro as personalidades ilustres que mesmo saindo de um Estado isolado ganharam repercussão, dos hábitos marcantes que registram as dificuldades, honradez e cotidiano do nosso povo, das nossas lutas e conquistas irrigadas com muito sangue e suor, enfim, de tudo aquilo que nós faz sentir verdadeiramente orgulho de sermos oriundos dessa terra tão acolhedora e carismática.

 

Infelizmente não tenho vislumbrado um quadro favorável para a mudança deste cenário, na medida em que boa parte do povo mato-grossense se omite na disputa de certames eleitorais por inúmeras razões, sendo um dos grandes e relevantes motivos a inviabilização de se enfrentar o enorme poder econômico e uso da máquina administrativa, ambos já dominados por pessoas estranhas a cultura do Estado, o que acaba por gerar desespero (ao conscientes) e tristeza (aos que amam a nossa terra e cultura).

 

Noutro giro, tem-se visto personalidades que jamais pisaram em Mato Grosso receberem homenagens em nosso Estado. Ouvimos gritos ululantes da cultura local quando pessoas que dedicaram a vida ao nosso povo não terem os seus nomes e feitos sequer registrados em singelas placas, o que indelevelmente levará ao desaparecimento da verdadeira história e vultos importantes desse rincão brasileiro. Há ainda inúmeros nomes da cultura e política mato-grossense que jamais foram contemplados em Ruas, Monumentos e outras obras, à mercê de fenômenos como “Rua 1”, “Rua A”, dentre outros vários exemplos.
Neste tópico, insta salientar que a ausência de investimento em educação, incentivos a programas culturais, desejo de mudança e enfrentamento da população local acabam por enterrar qualquer alternativa de retorno do nosso povo as rédeas do Estado ou ainda que de pessoas com propósitos atrelados ao do povo mato-grossense. Neste sentido, já dizia meu saudoso avô, de quem tive a honra de herdar o nome: 

 

“     Se fizermos uma análise na história política do país vamos ver, com clareza meridiana, que o poder econômico sempre se fez sentir de maneira decisiva nas eleições que se processaram no país, em todos os níveis e em todos os tempos.

(…)

Se investigarmos a história da política de Mato Grosso vamos ver que o mesmo fenômeno aqui se repetiu. A Constituinte estadual de 1891 foi marcada pela presença de vários magnatas da borracha; a de 1935 pelos usineiros de açúcar e a de 1947 pela dos criadores de gado, mau grado ainda a presença de alguns remanescentes da força eleitoral dos industriais do açúcar.

Essa influência do poder econômico, que se manifesta como uma constante na vida política brasileira, tende a se tornar mais profunda nos futuros pleitos.

Já vaticinei, há alguns anos passados, que a política nacional iria se tornar, dentro em breve, uma réplica perfeita da dos Estados Unidos da América do Norte (…) ali estão Senadores e Deputados eleitos sob uma ou outra dessas legendas (republicanos ou democratas), mas que são, de fato, representantes do ‘Grupo do Aço’, do ‘Grupo do Petróleo’, do ‘Grupo dos Frigoríficos’, do ‘Grupo do Carvão’ etc.

Para isso é que o Brasil está caminhando, se não tomarmos urgentes providências para mudar o rumo dos acontecimentos do país.”

[ LENINE PÓVOAS – Na Tribuna da Imprensa - .p. 29, 30 e 31 – Cuiabá/MT]

 

Não há nenhum problema no fato do Poder Público ou instituições serem dirigidas por cidadãos de outros estados, desde que esses indivíduos tenham comprometimento com a população local, sobretudo no que tange a cultura.

 

Neste cenário, é inegável a premente necessidade de resgatarmos os nossos ricos valores culturais, que sangra, e parece-me que o nosso povo se nega a visualizar isso…
A mistura de hábitos pode gerar perspectivas promissoras, mas isso não pode ocorrer de maneira excludente e segregacionista com o povo primitivo, mesmo porque parece-me que uma nova cultura está nascendo, todavia, é inadmissível que isso signifique o desaparecimento dos costumes e histórias dos nossos conterrâneos.

 

Em último tópico, ao comentar com amigos o teor do presente artigo, fui indagado se não tinha receio de possíveis represálias, respondi que o medo e ausência de enfrentamento foram fatores que nos levaram a marchar nesta direção, e deveriam ser superados, tendo ainda alertado que na minha concepção a vida só vale a pena se for para brigarmos por aquilo que acreditamos e achamos correto, sendo que se for para nos omitirmos, talvez seja hora de refletirmos, mesmo porque ela passa, e passa muito rápido, e o que restará serão apenas as reminiscências culturais.

 

Como cuiabano de família de outrora, aqui vai um dever com a minha consciência.

 

LENINE PÓVOAS é advogado.

10/03/2014

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