No mundo pós-moderno ocidental as pessoas buscam identificação não no que elas são de fato, mas no que elas consomem e exibem, de modo que não valorizam o permanente, fazendo surgir constante mudança no mundo da moda, motivo que faz inúmeros sociólogos denominarem a atualidade de tempos líquidos, haja vista que nada permanece sólido por muito tempo, mesmo porque as pessoas logo procuram suas identidades constantemente em novos produtos e lugares, não obstante ao fato de quererem exibi-los para, ilusoriamente, serem aceitos pelos outros: trata-se da sociedade do espetáculo na era do consumismo.
Diante do fato das relações sociais serem regidas por causas e efeitos, arrisco dizer que alguns prejuízos da atualidade decorrem dessa natureza consumista, que, inclusive, causa muita insegurança e medo, sobretudo em face daqueles que têm dificuldade em interpretar o jogo de interesses econômicos que se têm nos bastidores, tendo como palco principal o supérfluo mundo do ego.
O consumismo vem trazendo inúmeros problemas sociais, inclusive suas características já vêm se arrastando para os laços afetivos humanos, de modo que as pessoas não procuram dialogar para consertarem o que quebrou ou está desgastado e arranhado, mas reagem da mesma forma de quando surge uma nova moda: jogam fora o (relacionamento) velho e logo se aventuram em outro, com as ilusões de que o novo sempre é melhor e que não tem nenhum defeito, mesmo porque caso isso apareça, não demorará muito a ser descartado.
Na política não foi diferente, sendo que no Brasil temos um agravante: vem ocorrendo a demonização dos nossos representantes. As pessoas perderam a fé nas figuras públicas por inúmeras razões, o que faz com que quando se fala que um sujeito é agente político, algumas pessoas, automaticamente, já assimilam a imagem dele a uma atmosfera negativa, o que acaba por gerar alienação política e afastamento da população para com o Estado, inclusive é esse o motivo pela qual muita gente passou a idolatrar os famosos, aguardando deles a fantasiosa salvação do planeta.
É a luz deste cenário que ouso dizer que muitas pessoas preferem consumir de forma exacerbada, de modo que acabam buscando válvulas de escape a fim de se anestesiarem para com a desconfortante realidade, sendo que na primeira desgraça divulgada por veículos de comunicação sensacionalista que só tem interesse em vender a matéria, sem ao menos tentarem entender o problema a fundo, fazem questão de elegerem culpados: os políticos.
O mais intrigante consiste no fato de que muitos oportunistas roubam a cena ao sugerirem fórmulas mágicas para estancarem os efeitos dos problemas, sem irem, de fato, nas suas raízes. É um prato cheio para ganhar voto, ainda que não se resolva a situação. Invoco-lhes um exemplo: a redução da maioridade penal, o que acaba fazendo com que a população, muitas vezes numa situação de medo, acaba por continuar consumindo desesperadamente e optando por ideias de verdadeiros profetas, contribuindo inconscientemente para elegerem sujeitos demagogos com propostas fantasiosas, mesmo porque aqueles que tem coragem de dizer a verdade encontram dificuldades em obterem êxito em pleitos eleitorais, haja vista que a população quer ouvir o que soa bem no ouvido para continuarem na paz do consumismo, sem nada e nem ninguém para atrapalhar inclusive mantendo os menores infratores longe . coitado daqueles que tentarem discutir a causa (raiz) e não o efeito do problema. Mentiras reconfortantes são atrativas, verdades doem demais para serem discutidas na sociedade do consumo.
É fácil ficar sonhando com qual produto ou lugar serão os da moda no mês que vem e, paralelamente, elegendo culpados para a desgraça nacional e aderindo ideias infantis para a nossa salvação, difícil mesmo é contribuir para a mudança deste cenário, tal qual como um debate lógico das causas e efeitos. Discutir os efeitos é fantasioso e ilusório, mas dá voto . falar das causas é complexo, difícil e gera polêmica, sem contar que não dá voto.
Ah, antes que eu comece a tomar pedrada, existe uma sutil diferença entre você não ter a menor noção do que esta acontecendo no mundo e contribuir para o seu declínio, e você ter consciência e se adaptar, aqui falo da teoria da adequação social.
Exemplificando. Um advogado muitas vezes dirige um carro importado não porque ele acredita que aquele seja o sentido da vida, mas numa sociedade profundamente doente e consumista, aquilo serve de vitrine, mesmo porque os clientes associam o seu gabarito jurídico aos objetos que ele exibe, daí o motivo pelo qual digo: Tem gente que vive para impressionar e tem gente que impressiona para viver.
Enquanto a sociedade do consumo imperar e empurrar as pessoas para buscarem respostas no fantasioso mundo do ter, demagogos oportunista irão se eleger facilmente com propostas edênicas e mentirosas.
LENINE PÓVOAS é advogado em Cuiabá.
23/05/2013